Marcar uma consulta médica ou mesmo fazer um simples exame de sangue, situações normais do cotidiano de cada pessoa, são para a população que depende do SUS em Betim um verdadeiro teste de sofrimento. Para essas pessoas, acordar de madrugada e esperar por horas em filas em postos de saúde, sob chuva ou até o frio congelante, são a única forma de garantir a prestação desse tipo de serviço. Desde o início deste ano, segundo denúncia feita por servidores públicos municipais, a Secretaria Municipal de Saúde, alegando corte nos gastos, reduziu os dias e limitou o número de consultas e exames oferecidos aos usuários, que já enfrentam há anos o descaso e o sucateamento da saúde na cidade.
Nesta semana, a reportagem flagrou dezenas de pessoas na Unidade Básica de Saúde (UBS) Paulo Camilo em busca de um atendimento. E, na maioria dos casos, elas voltaram para casa sem conseguir o atendimento. “Cheguei aqui às 5h50 da manhã para marcar um exame e não consegui. Já é a terceira vez que venho e não consigo marcar porque eles só dão 20 senhas apenas para o povo. O município está no fundo do poço. A gente cobra da prefeitura, eles jogam a culpa no governo federal”, reclamou Paulo Lino da Costa, 51.
Quem teve um pouco mais de sorte foi a dona de casa Roseli Soares, 33. Ela chegou ao mesmo posto de saúde às 3h da madrugada, e conseguiu a senha para marcar seus exames de sangue, porém, reclamou do sofrimento para obter o atendimento. “Quase congelei na fila. A forma como estão tratando a gente é desumana”, disse.
O mecânico Welington Rogério, 29, que desde às 4h50 da madrugada acompanhava o irmão para tentar marcar um exame na UBS Paulo Camilo, concorda com Roseli. Para ele, conseguir agendar exames e consultas na saúde pública do município é um direito da população. “O posto não pode estipular o número de vagas de exames. Eles têm que atender todas as pessoas que estão na fila esperando. A gente paga imposto, merece respeito do prefeito Carlaile, mas é tratado como cachorro”, disparou.
Já na UBS Dom Bosco a situação não é diferente. Na semana passada, a vendedora Gislene Rodrigues Pinto, foi até a unidade para se consultar com um clínico geral e, segundo ela, só conseguiu porque estava passando muito mal. “Essa situação revolta. Quando cheguei lá, distribuiram apenas sete senhas para atender as pessoas que estavam muito mal e dez senhas para atendimento simples. Depois não atendeu mais ninguém”.
Serviço piorou
De acordo com um funcionário da atenção primária, que pediu sigilo para não sofrer represálias, os postos de saúde da cidade faziam antes a marcação de exames e a coleta de material todos os dias, entretanto, neste ano, a situação mudou. “Agora, as pessoas chegam aqui, ficam desde madrugada na fila e não conseguem marcar as consultas e fazer os exames. Revoltadas, agridem os funcionários que não têm culpa de nada”, disse.
Ainda segundo ele, os pacientes passam por outro problema: refazer os exames. “A coleta acontece às 7h, mas o laboratório só passa para pegar o material às 10h, mesmo assim, vai em várias unidades para depois levar o material para o laboratório. Isso compromete a qualidade dos exames. Por isso, na maioria das vezes, eles têm que ser refeitos nos postos”.
Para o vereador Antônio Carlos (PT), esse é mais um retrato do descaso da saúde de Betim. “Como a base do atendimento não funciona bem, acaba estrangulando o atendimento de urgência e emergência. Para mim, o problema da saúde de Betim é de gestão. Temos uma arrecadação alta, recebemos repasses dos governos federal e estadual, mas a gestão não consegue aplicar de forma eficaz os recursos da saúde”, afirmou.
Protesto
Diante da falta de médicos para atender na UBS Dom Bosco, moradores e lideranças dos bairros Betim Industrial e Dom Bosco fizeram um ato na última quinta-feira (16) para tentar chamar a atenção das autoridades. “A população merece atendimento digno, mas não tem. Antes, na UBS do bairro haviam três ginecologistas, três pediatras e três clínicos. Agora, são os enfermeiros que fazerem o serviço dos médicos, prescrevendo alguns medicamentos”, afirmou a dona de casa Elizabette Soares, 49.
“Como vereador, busquei informações sobre a redução dos médicos da unidade e cobrei da prefeitura uma solução. Eles alegam que a diretoria financeira do governo ainda não autorizou a contratação de mais médicos. Isso é um absurdo”, criticou o vereador Tiago Santana (PCdoB), que participou do ato.
Posicionamento
A Secretaria Municipal de Saúde disse que o processo seletivo para a contratação de médicos já foi apreciado pela Procuradoria-Geral do município e aguarda avaliação e parecer da Junta de Execução Orçamentária e Financeira (Jeof). A pasta alegou ainda que os exames são marcados todos os dias.