Trapalhada do governo quase tira 90% da cultura

Um projeto assinado pelo prefeito Carlaile Pedrosa (PSDB) quase acabou com os recursos do Fundo Municipal de Cultura (FMC), usados para financiar os projetos artísticos aprovados pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura Noemi Gontijo. E a medida só não foi concretizada porque o governo voltou atrás e retirou o projeto em menos de 24 horas após ele ser apresentado.

A proposição 083/2015 foi enviada para a Câmara na última terça-feira (19). A proposta era reduzir em 90% os recursos do Fundo Municipal de Cultura. De acordo com o texto do projeto, o montante repassado para o FMC reduziria de 2% para apenas 0,2% o dinheiro para financiar projetos culturais da cidade, que é oriundo da receita de Imposto sobre Serviço de Qualquer Natureza (ISSQN) e do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU).

A tesoura na cultura só não foi para frente porque menos de 24 horas depois, na quarta-feira (20), o governo retirou o projeto da Câmara. Entretanto, o desgaste já estava feito com a classe artística. O que piora ainda mais a situação é a forma como teria sido conduzido o processo. Segundo informações de bastidores, o projeto teria sido elaborado sem o conhecimento de muitos secretários, principalmente, os ligados à área política do prefeito.

A ideia da atual gestão com a medida seria reduzir gastos no governo. No entanto, a economia para a prefeitura seria muito pequena. Para este ano, os recursos para o FMC são de R$ 2,45 milhões, cerca de 0,13% da arrecadação prevista do município (cerca de R$ 1,8 bi). Caso a proposta fosse aprovada, o montante cairia para apenas R$ 245 mil.

O projeto foi lido e acabou pegando os vereadores de surpresa, inclusive os da base aliada do governo. O vereador José Afonso, o Pãozinho (PV), foi um dos que criticou a proposta. “Os artistas já são sacrificados em Betim. A prefeitura tem é que ajudá-los. O fomento da cultura é essencial para tentar combater a violência na cidade”, disse.

Léo Contador (DEM) também se mostrou contra. “Isso (o corte) é um retrocesso. Vemos os artistas com tantas dificuldades, e o governo ainda quer cortar mais”, criticou.

Perdido
A medida de colocar o projeto para tramitar na Câmara e retirá-lo 24 horas depois também foi alvo de críticas. “Isso comprova o que a gente já vem falando, que não há uma gestão competente na prefeitura, que a equipe do prefeito não sabe o que faz e está perdida”, disse o vereador Antônio Carlos (PT).

“Esse projeto, do jeito que foi enviado, já era um absurdo, porque 2% destinado ao fundo de cultura já é pouco, ainda mais em uma cidade tão violenta como Betim. Além disso, a retirada do projeto em apenas um dia comprova que falta planejamento e comunicação dentro do próprio governo, que as pessoas não estão falando a mesma língua”, completou Eutair dos Santos (PT).

Para o ex-presidente da Fundação Artístico-Cultural de Betim (Funarbe), Osvander Valadão, o projeto seria uma forma de acabar com promoção da arte e da cultura na cidade “O que já aplica hoje é pouco e, agora, a prefeitura propôs cortar 90% dos recursos. Isso é um retrocesso imenso porque Betim tem uma das mais avançadas lei de financiamento de arte e cultura independente, e copiada, inclusive, por outras cidades. É o cúmulo do absurdo essa alteração que eles haviam proposto”, disse.

Ainda segundo Valadão, quando ele dirigiu a Funarbe, o valor dos recursos aumentou. “Conseguimos dobrar o dinheiro destinado para a arte e cultura. A falta de capacidade e gestão da administração municipal quis acabar com a cultura”, completou.

A prefeitura alegou que enviou o projeto para Câmara em virtude da grave crise econômica pela qual o país atravessa e justificou que retirou o projeto “devido à solicitação da Funarbe em conjunto com artistas locais”.

"Se cortar o recurso, pode fechar a Funarbe"

Os artistas da cidade também reprovaram o projeto do Executivo. “Cortar 90% do fundo de cultura é acabar com a cultura, pode até fechar a Funarbe, pois a Lei de Incentivo é a única coisa que funciona na área cultural na cidade. É a única maneira que mantém o artista betinense ainda respirando, com possibilidade de produzir algum trabalho, já que não temos teatro e casas de espetáculos”, disse o diretor de teatro Gilbert Diniz.

Para o ator e também diretor de teatro Emmano Garcia, os artistas devem ficar atentos. “O que é gasto com a Lei de Incentivo é muito pouco dentro o orçamento municipal. Temos que ser vigilantes para que outras propostas como essa não sejam aprovadas. Hoje, em relação à prefeitura, a classe artística está órfã”.

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