Reconhecido há 46 anos no Brasil e exterior como um projeto social que mantém as tradições do artesanato mineiro e que promove a cidadania se preocupando, sobretudo, com o potencial do ser humano, o Salão do Encontro também está sofrendo os reflexos da crise administrativa e financeira da Prefeitura de Betim. Nesta semana, a organização não governamental se viu obrigada a dispensar 300 alunos atendidos pela escola complementar – programa que oferece atividades e oficinas de arte e educação à crianças e adolescentes em horário complementar ao ensino fundamental – por causa do atraso de uma parcela do repasse mensal de R$ 24 mil feito à entidade pelo atual governo.
“Esse recurso é usado para pagar o salário dos nossos 14 colaboradores, entre monitores, auxiliares de limpeza e administrativo, coordenador geral do programa e cozinheira. Como não recebemos uma parcela da verba do convênio, não tivemos como pagar os funcionários, que nos informaram que não poderiam trabalhar sem receber. É uma situação muito difícil, pois muitos deles são arrimo de família e precisam desse dinheiro para sustentar suas casas. A solução encontrada por nós, infelizmente, foi suspender o atendimento da escola complementar”, explicou Erlania Aparecida de Paula Silva, coordenadora geral dos projetos educacionais do Salão do Encontro.
Segundo ela, o programa escola complementar já havia sido interrompido de janeiro a julho deste ano, por causa do fim do convênio com a prefeitura. “Só depois de muita luta dos pais e do Salão, conseguimos retomar com o programa no início de agosto, quando foi assinado o convênio até dezembro deste ano. Estávamos pleiteando renová-lo no início de janeiro”, disse. “Estamos cobrando das autoridades, mas nos informaram que ainda não há previsão de efetuarem o pagamento. Nossa esperança é que no próximo ano as coisas melhorem”.
Pais, crianças e adolescentes atendidos pelo programa lamentam o cancelamento por causa do atraso de repasse de verba da prefeitura. É o caso do servidor público João Carlos Vale, 54, e da esposa, a psicóloga Vivian Ribeiro Alves, 41, que têm duas filhas, Iara Ribeiro Vale, 9, e Isis Ribeiro Vale, 3, atendidas pelo Salão do Encontro.
“Minha filha mais nova continua estudando lá, mas a mais velha não. Fomos pegos de surpresa com a interrupção do programa, pela segunda vez neste ano. São centenas de famílias beneficiadas que foram prejudicadas. Felizmente, a minha sogra pode ficar com a Iara, mas há muitas pessoas não têm onde deixar seus filhos. Ficamos até constrangidos de ver o Salão do Encontro passar por essa situação. O município precisa tratar esses convênios com responsabilidade. É obrigação do poder público oferecer educação, isso está na Constituição. O Salão do Encontro presta um serviço fundamental para a sociedade, oferecendo o que o Estado não faz. Passou da hora de o Brasil entender a importância do ensino de tempo integral”, criticou o João Carlos.
A dona de casa Eny Nunes de Freitas, 55, e sua neta, Marcely Cecília Rodrigues Marinho, 9, também foram afetadas pelo cancelamento do programa. “Minha neta estuda no Salão do Encontro há dois anos. Adora participar das atividade desenvolvidas lá. Fomos pegos de surpresa com o cancelamento. Soube da notícia através de um bilhete. Achei um absurdo a prefeitura atrasar o repasse. Felizmente, temos como ficar com a Marcely depois da escola. Mas na instituição tem muitas mães solteiras, que trabalham fora e que não têm onde deixar seus filhos”, disse a avó.
Dificuldade financeira
Desde o ano passado, o Salão do Encontro vem enfrentando sérias dificuldades financeiras após a perda de patrocínio de empresas, por causa da crise. Tanto que 160 pessoas, a maioria artesãos que aprendiam ali a resgatar antigas tradições, como o tear e a marcenaria manual, foram demitidas. “A entidade fez de tudo para manter os funcionários, que eram a base do projeto, mas não resistiu à crise. As vendas dos produtos estavam baixas, e cinco empresas deixaram de contribuir, entre elas multinacionais. Elas já tinham uma relação de confiança com a gente, mas justificaram o corte com o cenário econômico do país”, explicou a gerente de projeto do Salão, Lourdes Leite.
Nega atraso
A prefeitura informou que não houve atraso no repasse no valor de R$ 24 mil, mas, sim, na entrega da documentação, que, segundo o governo, teria ocorrido na quarta-feira (16). “Uma vez recebido os documentos, o pagamento foi prontamente realizado na quinta-feira (17)”, declarou por e-mail.