Rixas internas dividem governo em dois grupos

Quem viveu em Betim no fim dos anos 90 viu um governo até então popular e bem avaliado se desidratar e ruir por brigas internas. Era a então administração do prefeito Jésus Lima (PT). Dentro do Partido dos Trabalhadores existiam pelo menos duas correntes díspares: uma ligada à Maria do Carmo e outra, a Jésus.

Como boa parte dos nomes que ajudaram MDC a administrar a cidade entre os anos de 1993 e 1996 não era de confiança da gestão de Jésus, muitos integrantes do primeiro escalão foram “importados” de outras cidades. Foram logo batizados de “forasteiros” pela oposição e também pelo chamado “fogo amigo”.

Parece que a história se repete 15 anos depois. Enfraquecido pela qualidade de sua gestão e com a popularidade em baixa, após o rompimento com o aliado histórico Vittorio Medioli, o governo de Carlaile Pedrosa passa por uma verdadeira convulsão interna.

O prefeito, desta vez um tucano que se comportava como um grande crítico à “importação de gestores” nos anos petistas, mudou o discurso e trouxe boa parte de seu secretariado de fora, causando, mais uma vez, desconforto para quem nasceu ou viveu boa parte de suas vidas em Betim.

A briga agora volta a ter o clima de “forasteiros”, como na época de Jésus Lima, contra os secretários que são daqui. Esses últimos alegam que sempre estiveram ao lado de Carlaile, mas que, de uma hora para outra, perderam voz e o direito de ação dentro da atual administração.

A verdade é que no meio desses dois grupos estão os betinenses, ou seja, a população, que acaba pagando o pato, pois os atuais mandatários não conseguem dar andamento a políticas de governo elementares, como a manutenção de pediatras nos centros de saúde, educação de mínima qualidade, valorização do funcionalismo e a manutenção de projetos sociais e esportivos, além de propostas que possam ajudar no combate à epidemia de violência. Até leis estão sendo descumpridas, como é o caso do repasse para a cultura.

Há, de acordo com os próprios secretários municipais, que pedem para não ser identificados, uma divisão muito clara dentro da gestão. O descontentamento é maior por parte de secretários como Mauro Reis (Gabinete), Wagner Lara (Administração) e Vânia Estevão (Planejamento). Pelo outro, Hugo Teixeira (Comunicação), Flávio Sapori (Segurança) e Gustavo Palhares (Gestão), de fora da cidade, criaram um grupo que tem conseguido concentrar as decisões mais importantes.

Os que vêm de fora, como denunciam antigos aliados de Carlaile, também trazem consigo outras pessoas que são nomeadas em cargos estratégicos e que deveriam ser fundamentais para o bom andamento da máquina pública, porém, acabam sendo responsáveis por atitudes consideradas inadequadas, como a nomeação de “afiliados políticos” para ocupar os cargos de diretores e vice-diretores.

“A turma de fora chegou e dominou. Não somos mais ouvidos. Tudo o que se vai fazer é preciso ter o aval dos ‘três mosqueteiros’ (referência a Hugo, Gustavo e Sapori). O prefeito perdeu o rumo e, na ânsia de querer recuperar o prestígio, está colocando os carros na frente dos bois, ouvindo apenas quem nunca vivenciou a política e os problemas locais”, disse um dos secretários.

Outra situação que mostra o racha diz respeito a um contrato apresentado pelo secretário de Planejamento, Gustavo Palhares. “Ele insiste em fazer um registro de preço de milhões de reais para contratar a empresa Algar Tecnologia, porém, o grupo de secretários que é de Betim não admite fazer isso, pois acha que é muito dinheiro para não se fazer uma licitação mais rigorosa e transparente, havendo suspeita de favorecimento para a empresa. Há quem diga que isso vai parar no Ministério Púbico”, explicou um dos integrantes da Junta de Execução Orçamentária e Financeira (JEOF), comitê criado para avaliar a conformidade de todas as aplicações financeiras e despesas feitas pelo município.

Silêncio
Por e-mail, a reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Betim para que a administração se pronunciasse sobre os desentendimentos no alto escalão do governo de Carlaile Pedrosa (PSDB), porém, até o fechamento dessa edição, a assessoria de imprensa não havia se manifestado. O jornal concluiu esta página por volta das 20 horas de quinta-feira (27).

Disputa pela prefeitura só agrava brigas internas

A reunião que definiu a posse do novo diretório do PTB, cujo protagonista foi o secretário de Desenvolvimento Econômico, Fabrício Freire, realizada na semana passada, aumentou o clima de revanche entre os secretários que são de Betim e os que vieram de fora.

Segundo informações de dentro da prefeitura, o prefeito Carlaile Pedrosa (PSDB) não teria gostado do destaque recebido pelo seu subordinado e pelos afagos de aliados ao novo prefeiturável. Os secretários de fora, que hoje são tidos como os “conselheiros” da atual administração, também acharam o evento ruim. Fabrício, por sua parte, disse que teve a liberação do prefeito para se “movimentar”.

O fato é que a pouco mais de um ano para as eleições o governo se divide em grupos distintos, que, agora, disputam espaço enquanto a cidade passa pela pior crise de sua história. Fora da prefeitura, a situação também não é boa. O grupo político que elegeu Carlaile Pedrosa está se desfazendo e cada político busca seu lugar ao sol.

Um deles é o vereador Weliton de Abreu (PSB), o Sapão, que não esconde o desejo de disputar a prefeitura. Como seu partido estuda compor uma possível chapa com o prefeito Carlaile Pedrosa (PSDB), Sapão, que já havia rompido com o governo, sinalizou, durante a reunião da Câmara, que está de saída do partido. “O meu pensamento é diferente do PSB. Hoje, não tenho intenção de ser candidato a vice. Eu sou pré-candidato a prefeito”.

Outro político que deve abandonar o grupo do tucano é o secretário municipal de Esportes, Beto do Depósito (PSDC). Apesar de ainda fazer parte da administração de Carlaile, Beto já se considera fora dela no ano que vem. Ele quer se candidatar a prefeito e já trabalha com um grupo de partidos com esse objetivo.

Além deles, Pinduca (PP), que há cerca de 15 anos vem compondo chapa com Carlaile, também anunciou que deve rachar com o governo. Segundo ele, a atual gestão tem tudo “para perder as eleições”. Segundo ele, “não é bom arriscar”.

O prefeito ainda deve enfrentar ainda candidaturas mais à esquerda, encabeçadas pelo PT e PCdoB, além da chamada terceira via, que tem à frente o empresário Wenceslau Moura.

PSOL
O PSOL também não definiu seu pré-candidato a prefeito. Três disputam a indicação: Humberto Soares, presidente do partido, Sargento Peixoto e o servidor Alex Bezerra. Já o PHS também discute as eleições do ano que vem, mas ainda não se definiu.

Briga já é discutida fora da prefeitura

A briga entre secretários municipais que moram em Betim e os que vieram de fora já não é discreta, ultrapassando os limites da prefeitura e se tornando uma típica “conversa de boteco”.

Durante o Rodeio do Imbiruçu, evento que, de acordo com os organizadores, teve pouco apoio da prefeitura porque “as pessoas à frente da gestão são de fora e não conhecem as necessidades das comunidades”, o prefeito chegou a travar discussões graves com dois secretários que são de Betim.

O jornalista Lourival Santana, que acompanhava o evento no camarote montado para as autoridades, presenciou a discussão entre Carlaile e os secretários de Esporte, Beto do Depósito, e de Desenvolvimento Econômico, Fabrício Freire. Ele chegou a postar o que tinha ouvido em sua página no Facebook.

“O prefeito estava reclamando que os dois, ao falarem pela prefeitura, não pronunciaram o nome dele e do governo. A bronca foi grande e causou muito nervosismo”, disse Santana.
Segundo o jornalista, Beto do Depósito alegou que “apenas seguiu orientação de Hugo Teixeira”.

“Foi ele quem nos orientou a não falar o nome da prefeitura nem do prefeito para se evitar vaias. Ele é o secretário de Comunicação. Segui aquilo que ele determinou”, teria dito Beto a Lourival.
Até a propaganda gerou confusões. Hugo Teixeira resolveu investir mais de R$ 2 milhões em uma campanha que fala do compromisso da gestão de Carlaile com o funcionamento da prefeitura.

Para isso, usou 80% do recurso em emissoras de televisão. Foi o bastante para Fabrício Freire desferir severas críticas.

Segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico, “o dinheiro seria mais bem gasto se fosse aplicado em fornecedores e veículos locais”.

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