Em uma cidade em que a saúde amarga os reflexos do descontrole administrativo-financeiro das últimas gestões municipais, onde pediatras são cortados de Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), onde há ameaça de fechamento da Maternidade Pública do Imbiruçu, onde pacientes e funcionários da saúde convivem diariamente com a falta de medicamentos e de insumos nos postos de saúde, agora é a vez de pacientes de uma clínica de fisioterapia no bairro Filadélfia, 100% custeada com recursos da Prefeitura de Betim, pedirem socorro. Segundo denúncia feita por usuários do estabelecimento, desde o início de julho deste ano, a clínica teve que interromper o atendimento por falta de repasse de verba do município, deixando mais de 200 pessoas sem assistência.
É o caso, por exemplo, do porteiro Adenilton Eneias Pereira, 44. Há dois anos, ele sofreu uma queda do telhado de casa e quebrou o calcanhar. Depois de passar por duas cirurgias e de sofrer a rejeição dos parafusos colocados na perna dele, o tratamento de fisioterapia foi a única saída encontrada para tentar aliviar suas dores e ajudá-lo a poder caminhar sozinho. “Antes de fazer fisioterapia na clínica, eu só ficava na cama. Agora, voltei a andar. Mas fiquei apavorado ao saber que o atendimento lá acabou porque a prefeitura não está mais fazendo o repasse da verba. Tenho medo de que essa situação permaneça e que meu estado de saúde retroceda. Fora isso, como não consigo trabalhar, dependo do INSS. Tenho que fazer perícias constantes e entregar um laudo da clínica. Se o atendimento lá não voltar e eu não conseguir vaga em outra unidade do SUS, posso ficar sem o repasse do INSS”.
A enfermeira Solange Maria da Silva, 57, moradora do bairro Marimbá, também está revoltada com o fechamento da clínica. Desempregada e sem condições financeiras para pagar a reabilitação, ela teme que sua mão fique atrofiada. “Em fevereiro do ano passado, cai perto de casa e quebrei o braço. Depois de tirar o gesso, sofri uma nova queda, e acabei fraturando a mão e punho. Fiquei meses sem movimentar o braço. Demorei um tempo também para começar a fazer fisioterapia. Hoje consigo segurar um copo, os talheres. Mesmo assim, preciso da ajuda de familiares, porque não consigo mais fazer o serviço de casa sozinha”, contou Solange.
A enfermeira afirmou ainda que precisa fazer uma cirurgia ortopédica, mas aguarda por uma consulta há mais de um ano. “Sem fisioterapia e sem a cirurgia, minha mão vai atrofiar. Tem vez que meu ombro incha, sinto formigamentos e muita dor no braço. O prefeito podia ter piedade da população. Hoje somos nós que precisamos, amanhã podem ser eles”, criticou.
A dona de casa Adriana Cláudia Neves Silva, 52, também disse estar desolada com o fechamento da clínica. Ela sofre de escoliose e tem problema nas pernas por causa da diabete, o que faz com que ela sinta muitas dores no corpo. O tratamento na clínica, segundo ela, foi a única esperança encontrada para amenizar seu sofrimento. “Estava na 13ª sessão, com uma melhora expressiva, quando disseram que o atendimento havia sido interrompido. Fiquei arrasada, já tinha conseguindo voltar a caminhar. Agora, voltei a estaca zero”, lamentou.
Sem repasse
A reportagem entrou em contato com funcionários da clínica, que confirmaram o fim do repasse da verba pela prefeitura. Conforme eles, a clínica é a única em Betim conveniada com o SUS e que ajudava a desafogar o atendimento na rede pública da cidade. “Atendíamos mais de 200 pessoas por mês. Mesmo assim, a fila de espera na rede ainda é enorme. Como fechamento, a situação vai piorar ainda mais, já que o Centro de Reabilitação Anderson Freitas é o único que faz esse tipo de atendimento na cidade”, disseram.
A clínica atua na reabilitação em fisioterapia de pacientes do pós-operatório e com dores crônicas. O recurso repassado pela administração era usado para custear os funcionários e todo o material necessário para o atendimento, como faixas, gel, bolsas térmicas, além do pagamento de luz, água e aluguel.
Dívida parcelada
Em nota, a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Saúde informou que o credenciamento para prestação de serviços de fisioterapia pela clínica no bairro Filadélfia não foi rompido.
A secretaria ressaltou que uma parte do pagamento da dívida já foi realizada no dia 28 de julho e que, após o dia 10 de agosto, outra parcela será paga, conforme cronograma.