Toda vez que precisa levar seu filho, Joaquim de Andrade, 7, ao médico, Jacqueline de Andrade, 43, passa por uma sabatina. Com problemas na coluna, a dona de casa tem que se desdobrar para sair de sua residência, localizada em um terreno íngreme, no Itacolomi, e empurrar a cadeira de rodas do garoto, que, além de estar acima do peso, tem paralisia cerebral. Como se não bastasse, as ruas do bairro estão esburacadas, o que dificulta a locomoção. Uma forma de tentar amenizar o sofrimento de mãe e filho seria que eles recebessem o atendimento domiciliar do programa Estratégia Saúde da Família (ESF), que, segundo promessa de campanha do prefeito Carlaile Pedrosa (PSDB), atenderia em seu mandato toda a população de Betim, mas não é isso o que vem ocorrendo atualmente.
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, o município conta com a atuação de 87 equipes completas do Saúde da Família, mas, informações extraoficiais de um servidor, que falou sob anonimato, dão conta que, para atender os 388.873 habitantes da cidade, Betim precisaria ter, pelo menos, 119 equipes do programa.
Para piorar, os R$ 675 mil de verba que são repassados por mês pelo governo federal para a prefeitura poder gastar com o programa parecem não ser suficiente para a atual administração oferecer um serviço de qualidade. Além de a cobertura populacional do programa ser de 72,75%, conforme informações obtidas nesta semana no site do Ministério da Saúde, em algumas regiões em que o programa existe, o funcionando está de mal a pior porque muitas equipes estão incompletas.
Médico do Saúde da Família há três anos, Luís Alberto afirmou que o programa em Betim está com uma alta demanda reprimida e diversas áreas descobertas. “Na UBS (Unidade Básica de Saúde) em que trabalho, no Alvorada, eram três equipes para atender os bairros Riacho III, Alvorada, Renascer, Piemonte, Novo Amazonas e ainda um acampamento de ciganos. Hoje, são duas, mesmo assim, incompletas. Chegamos a ter no posto sete médicos e, hoje, a unidade conta apenas comigo. Mas confesso que estou a ponto de pedir exoneração, porque não estou aguentando mais a desvalorização dos profissionais, a falta de segurança, a sobrecarga de serviço e o salário, que está abaixo do mercado e é o pior da região metropolitana. Isso tudo desmotiva o profissional e, infelizmente, reflete no atendimento, que já não era bom, e piorou nos últimos 12 meses”, desabafou.
A equipe do Saúde da Família é composta por, no mínimo, um médico, enfermeiro, auxiliar ou técnico de enfermagem e agentes comunitários de saúde (ACSs) O objetivo é oferecer assistência básica aos usuários. Cada equipe deve ser responsável por 4.000 pessoas por área. “Nossa equipe está incompleta, não conseguimos fazer a cobertura de toda a região e, agora, a prefeitura quer aumentar o número de atendimentos que temos que fazer. Vamos ficar ainda mais sobrecarregados”, reclamou uma agente de saúde na UBS do Cidade Verde.
Quem mais precisa do serviço reclama da precariedade. “Há quatro anos um agente de saúde não vem na minha casa, no Itacolomi. Nem um neurologista consigo para atendê-lo”, contou Jacqueline de Andrade.
O aposentado José Alves Pereira, 62, é outro morador revoltado. “A saúde de Betim estava na UTI e, agora, morreu. No Riviera não passa um agente há meses, as que tem estão sendo exoneradas”, criticou.
Jogo de empurra
A Secretaria Municipal de Saúde informou que, de acordo com dados oficiais da Secretaria de Estado da Saúde (SES), Betim possuiu cobertura territorial de 92,5% do programa de Estratégia de Saúde de Família. A secretaria declarou ainda que está concluindo um estudo de território para verificar e readequar, se necessário, a área de abrangência das equipes”.
A secretaria ressaltou que “todos os técnicos em enfermagem aprovados no último concurso público já foram chamados”, entretanto, justificou que “nem todos assumiram” e que “há uma falta dos referidos profissionais no mercado.”
A secretaria acusou a gestão anterior, ao afirmar que “ao assumir a gestão, em 2013, Betim possuía apenas quatro equipes incompletas do programa Estratégia de Saúde da Família.”