“Era por volta das 20h quando chegamos ao posto desativado. Paramos o carro e desligamos os faróis para tentar não chamar a atenção. Nessa hora, o medo começou a tomar conta de toda a equipe, afinal, além da insegurança por causa da falta de iluminação e do ambiente ermo, estávamos na ‘área’ deles. Não demorou muito e a movimentação se iniciou. O vai e volta de pessoas, cabisbaixas e desconfiadas não parava. Um veículo se aproximou, reduziu a velocidade, piscou os faróis duas vezes e abriu o vidro do carro. Em segundos, um homem surgiu da escuridão e entregou algo para o motorista. Esse, devolveu a ele uma quantia em dinheiro. Logo após, o motorista acelerou o carro e retornou à BR–381. Pouco tempo depois, uma viatura da Polícia Militar se aproximou, parou um dos veículos suspeitos, fez uma abordagem e prendeu um dos suspeitos de tráfico na região”.
Esse é o cenário degradante, visto diariamente e a qualquer hora do dia por quem passa em frente ao posto de combustíveis Chimarrão, foi acompanhado pela equipe de reportagem na segunda (4). Desativado há quatro anos e localizado às margens da BR–381, na altura do Riviera, é no local onde Betim viu nascer, nos últimos anos, sua primeira cracolândia. No espaço é possível flagrar cenas de uma ferida exposta no Brasil, o consumo de crack. Uma situação que revolta, em especial, moradores e comerciantes da região.
“A gente passa por lá e vê eles fumando na cara dura. Vendem droga sem nenhum pudor. Quando anoitece, nenhum morador se arrisca a passar por lá, é muito perigoso. Direto ouço trocas de tiros. Fora a prostituição que continua, mesmo depois de as casas onde as prostitutas ficavam serem demolidas”, reclamou uma dona de casa, moradora do bairro Riviera.
Esperança
Contudo, as atividades ilícitas de comercialização e de consumo de drogas no local, ao que tudo indica, podem estar perto de acabar. Isso porque, de acordo com o delegado Roberto Veran, responsável pelo 2º Departamento de Polícia Civil de Betim, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre o Ministério Público local e o proprietário do posto está sendo firmado com o objetivo de dar uma “função social ao local”.
“O uso e o consumo da droga na cracolândia se tornou uma questão de saúde pública em Betim. Perdi as contas de quantos pequenos traficantes eu prendi no local. As polícias Civil e Militar estão exaustas. Não por falta de empenho, mas apenas prender os traficantes e inibir os usuários lá não adianta. A região ficou estigmatizada e eles sempre retornam ao local. Por isso, iniciamos uma investigação para descobrir quem é o proprietário dos terrenos, abrimos um inquérito e, agora, esperamos que, com a intervenção do Ministério Público seja firmado um acordo com o responsável para que ele dê um fim social aos lotes, seja cercando, edificando ou vendendo os terrenos”, afirmou.
O inquérito sobre o caso corre em segredo de justiça, por isso, o nome do proprietário do posto de combustível não foi revelado. A assessoria do MP disse que está acompanhando o caso e que não iria passar mais informações por segurança.