Morte de garoto reforça sensação de medo no Teresópolis

Ao som de estampidos de tiros, moradores do bairro Vila Recreio, na região do Teresópolis, terminaram a noite de quinta-feira (24). Um garoto de 14 anos acabava de ser morto por três policiais que trabalham no 33º Batalhão de Polícia Militar de Betim. No dia seguinte, ainda pela manhã, revoltado, um grupo de pessoas foi até a BR–381 protestar contra a morte do menor. Além de fechar uma faixa da pista durante cerca de duas horas, eles atearam fogo em pneus e pedaços de madeira. Mais tarde, um toque de recolher foi imposto nas principais ruas e avenidas dos bairros Jardim Teresópolis e Vila Recreio. À noite, o clima de tensão ficou ainda maior quando, às margens da rodovia que corta os bairros, um ônibus ficou destruído após ser incendiado criminalmente.

A morte do garoto, além de ter reacendido entre os moradores a sensação de medo e insegurança por causa da guerra do tráfico de drogas que assola há anos a região do Teresópolis, também levanta o debate sobre como estão sendo desenvolvidos pelo poder público os projetos sociais com crianças e jovens que vivem nessa região.

Para um morador, que pediu para não ter o nome revelado por medo, mas que vive no Teresópolis há 30 anos, a região foi esquecida pelas autoridades. “Acabaram com todos os projetos sociais que existiam aqui, não há mais espaços de esporte, lazer e cultura para o jovens. Sem o que fazer, eles se envolvem com o mundo do crime”, disse o morador ao criticar a ação da polícia no caso do menor de 14 anos. “A condição de medo por causa dessa guerra do tráfico no bairro não é só da população, mas da própria polícia. Mesmo estando fortemente armados, os policiais não conseguiram sequer fazer uma abordagem a uma criança. Não estão devidamente preparados”.

Outro morador do Teresópolis disse a sensação de medo entre a população virou rotina na região. “Os tiroteios são constantes. Temos medo, mas já nos acostumamos, ninguém faz nada. O jeito é nos virarmos. Evitamos passar por ruas mais perigosas e ficar na rua até mais tarde. E como não há programas sociais aqui, a comunidade faz o que pode”.

Entenda o caso

Segundo boletim de ocorrência da Polícia Militar, militares receberam uma denúncia de que um rapaz estaria andando pelas ruas do Vila Recreio portando uma submetralhadora. Quando os policiais encontraram o adolescente de 14 anos em uma rua mal-iluminada, teriam ordenado que ele parasse e colocasse as mãos na cabeça. Porém, o garoto teria feito um gesto para pegar um objeto, que os militares julgaram ser uma arma. Nesse momento, os três policiais – um terceiro-sargento e dois soldados – efetuaram quatro disparos contra o menor, que atingiram o tórax e a virilha do menino. Ele foi socorrido, mas não resistiu.

PMs soltos

Segundo a Corregedoria da Polícia Militar, os três policiais foram presos na sexta (25), mas soltos no domingo (27). “Foi instaurado um Auto de Prisão em Flagrante, e aberto um inquérito, que será apurado pelo Polícia Civil. Mas como o delegado de plantão entendeu que houve legítima defesa por parte dos policiais, decidiu soltá-los”, declarou.

Já o ouvidor de Polícia do Estado de Minas Gerais, Paulo Alkmim, informou que solicitou à Corregedoria da PM que apure a morte do menor, assim como o Ministério Público, mas a Corregedoria, apesar de alegar que ainda não recebeu oficialmente nenhuma denúncia da ouvidoria, informou que o comandante do 33º Batalhão, Luciano Vivas, abriu um procedimento para apurar o caso.

A reportagem ligou várias vezes para o comandante da PM na quinta (1º), mas não conseguiu falar com ele.

Contraponto

A Secretaria Municipal de Segurança Pública disse estar ciente da grave situação e, por isso, fez contato com a Secretaria Estadual de Segurança Pública, e solicitou que, na próxima semana, seja realizada uma reunião emergencial em Betim com o comando do Batalhão e a Delegacia Regional. A reunião, entretanto, conforme nota, ainda não foi agendada.

A pasta afirmou ainda que oferece várias atividades na região, como os programas Esporte e Lazer da Cidade e Viva o Esporte, além do programa Fica Vivo. Já a Secretaria de Assistência Social (Semas) disse que desenvolve atividades sociais na região do Teresópolis em quatro Centros de Referência da Assistência Social (CRAS).

Familiares de menor negam que ele estava armado

Familiares do menor que morreu ficaram desolados e revoltados com o fato. Eles alegam que o rapaz não tinha envolvimento com o crime e que ele não estava armado. A mãe do adolescente, a dona de casa Ana Paula Nunes de Oliveira, 30, conta que o filho havia acabado de chegar em casa quando avisou que iria à casa de um amigo trocar uma peça mecânica por uma peça de bicicleta. Ele trabalhava em uma oficina com o padrasto.

“No caminho, ele foi abordado por uma viatura policial que, por equívoco, achou que ele estivesse armado. Meu filho trabalhava com meu marido em uma oficina e nunca teve envolvimento com o tráfico ou com algum tipo de crime, nunca foi apreendido pela polícia antes. O objeto que estava com ele era uma bobina de carro. Um inocente foi morto”.

Ainda de acordo com a mãe do adolescente, a vítima era uma pessoa tranquila e conhecida na região. “Tudo o que você pedia ele fazia na hora, era sempre prestativo. Ele estava há meses juntando sucata para comprar peças novas para essa bicicleta. E, agora que estava trabalhando, falou que ia me dar o dinheiro para que eu comprasse o que quisesse no Natal. Se meu filho parou quando foi ordenado, não tinha razão para ter atirado contra ele, não havia nada errado com ele”, completou a dona de casa.

Para o tio do garoto, Daniel Martins Gomes, 49, houve negligência durante abordagem. “As testemunhas contaram que meu sobrinho levantou as mãos como os policiais pediram no momento da abordagem, mas que mesmo assim ele foi baleado duas vezes. No local, foram achadas cápsulas das armas usadas. Não precisava ter acontecido o que aconteceu. Estamos arrasados com essa tragédia”, afirmou o familiar.

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