“Moro nas ruas há três anos e preciso do serviço oferecido nos abrigos de Betim. O problema é que nunca tem vaga e, quando tem, somos obrigados a ficar lá por três dias, o dia inteiro. Mas como vamos ficar em um lugar e não sair para ganhar dinheiro? Já não temos oportunidades de emprego, se não procuramos, então, não vamos ter como sobreviver”. A dura rotina vivenciada diariamente pelo morador de rua Roberth Gonçalves reflete uma ferida social da nossa sociedade: a falta de políticas sociais de reabilitação e reinserção dessas pessoas na sociedade.
Ao andar pelas ruas da cidade, não é difícil encontrar pessoas que fazem das ruas a sua moradia. Além de compartilhar sonhos e histórias de vida, muitos desses moradores carregam algo em comum: a indignação com relação ao descaso das autoridades. Em conversa com moradores de rua do município, nesta semana, eles reclamaram da falta de vagas nos abrigos e albergues da cidade, da postura omissa do governo e da falta de oportunidades de emprego. “Aqui em Betim nós não somos vistos como gente, mas, sim, como objetos. Ninguém nos ajuda a ter uma vida melhor”, desabafou Luciano Amaral, que também é morador de rua.
A reportagem acompanhou o vigia de carros Robson Alves até o Albergue Vitor Braighi, localizado na rua do Rosário, no bairro Angola. Morador de rua há seis meses ele conta que precisa dormir em abrigos. Contudo, ao chegar ao local, Alves foi informado que não poderia ficar, porque sua última passagem pelo albergue não havia completado um ano. “Essa é a realidade dos moradores de rua de Betim. Não temos aonde ficar. Quando saí do Pará, vim em busca de uma oportunidade de emprego, mas não encontrei.”
Segundo a estudante de psicóloga Heloisse Oliveira, 19, e voluntária em um projeto social desenvolvido por um grupo de pessoas que, duas vezes por mês, percorre as ruas de Betim distribuindo alimentos, roupas e cobertores para os moradores de rua, se houvesse na cidade políticas públicas mais efetivas para essas pessoas, o número de moradores de rua poderia ser menor. “Muitos estão nas ruas porque querem, mas existem aqueles que vivem nas ruas por causa do vício das drogas. Se houvesse mais investimento para fazer um tratamento com esse segundo grupo, por exemplo, acredito que muitos poderiam ser reinseridos na sociedade”.
Com a chegada do outono, a vida dos moradores de rua está duplamente mais difícil. Quem escolheu usar os arredores do Centro Poliesportivo Divino Braga para morar sabe bem disso. No entorno do ginásio, foram colocadas grades pela prefeitura, e eles não conseguem mais dormir no espaço. “Quando chovia ou fazia frio era lá o nosso refúgio, mas fecharam, de covardia, apenas para não ver tanta gente que não tem um lar morando lá em baixo”, desabafou.
Sem resposta
A Prefeitura de Betim não informou se desenvolve algum programa social voltado para os moradores de rua. A administração se limitou a dizer que o albergue Vitor Braigui aceita pessoas encaminhadas pelo Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP) e Trecheiros.