Impasse pode deixar mais crianças fora das creches

Os pais de pelo menos 23 mil crianças em Betim não podem contar atualmente com uma política pública voltada para a educação infantil. O dado, disponibilizado pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), em parceria com a PUC Minas, é preocupante e, ao que parece, tende a crescer nos próximos meses.

Isso porque, segundo denúncia feita por pais de alunos que estudam em dois centros infantis municipais, nos bairros Paulo Camilo III e Vila Cristina, o prefeito Carlaile Pedrosa (PSDB) afirmou que, caso a documentação dos imóveis alugados onde essas instituições funcionam não seja regularizada até o dia 30 de junho deste ano, as instituições terão que ser transferidas para outro lugar.

O problema é que, conforme as mães, os novos locais em que elas devem ser instaladas ficam muito longe de onde funcionam as creches hoje, o que iria prejudicar, pelo menos, 100 alunos, que não teriam mais como se deslocar para estudar. É o caso da filha de cinco anos da dona de casa Ana Paula Medeiros, 32, que há três anos estuda no Centro Infantil Municipal (CIM) do Vila Cristina, instituição localizada na rua Ponte Nove, e que atende alunos de diversos bairros da região, entre eles Industrial São Luiz, Parque das Acácias, São Cristóvão, São Miguel, Laranjeiras, Amarante e o próprio

Vila Cristina

“Minha filha e eu andamos, todos os dias, 15 minutos para chegar até a creche. Se a mudança ocorrer, teremos que andar 50 minutos, o que fica difícil para uma criança tão pequena. O prefeito deu um prazo muito curto para a proprietária do imóvel onde funciona a creche regularizar a documentação, mas isso leva muito tempo. Estou desesperada, porque não tenho condições de pagar passagem para levá-la. O que estão fazendo é uma sacanagem. A creche funciona neste endereço há nove anos, porque só agora estão pedindo a documentação?”.

Outra mãe preocupada com a mudança é a cabeleireira Ana Carolina Justino de Araújo, 28. Segundo ela, a maioria das casas no Vila Cristina não são regularizadas, o que dificulta a situação. “Estamos entre a faca e a espada, não sabemos o que fazer. Muitas mães são carentes e não terão mais como levar seus filhos para estudar”, afirmou.

No CIM Maria Engracia de Souza, no Paulo Camilo III, a situação não é diferente. Segundo uma mãe, que pediu anonimato, a prefeitura avisou os pais da mudança de repente. “Fomos pegos de surpresa, não sei o que fazer”, salientou.

Para o coordenador do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (Sind-UTE0 subsesão Betim, Luiz Fernando Souza, o problema apenas demonstra o descaso da prefeitura ao longo dos anos com a política pública da educação infantil na cidade. “Também não há infraestrutura própria para atender as crianças. Hoje, a grande maioria dos centros infantis funcionam em prédios alugados e sem uma estrutura adequada. Os demais são creches conveniadas, que sequer sabemos em quais condições estão”.

Ainda conforme ele, o anúncio da mudança de endereço das creches, em pleno ano letivo, é uma falta de respeito com essas mães. “O problema do aluguel desses centros infantis já é colocado há muito tempo, eles não poderiam avisar isso para as mães assim, muitas não têm condições financeiras para se deslocarem para muito longe”.

Estudo

Em 2013, levantamento do CMDCA, realizado em parceria com a PUC Minas, divulgou que 69% das crianças de 0 a 5 anos não estão matriculadas em creches e em núcleos infantis, ou seja, 23.102 em um universo de 33.404 crianças. Foram analisadas 61 instituições municipais. As regionais com menores índices de inscritos são o Alterosas com 6.329 (73%); o Imbiruçu com 4.946 (74%) e o centro com 3.332 (72%). Crianças com idade entre 0 e 3 anos são as mais prejudicadas. De um total de 22.254 menores nessa idade, apenas 4.428 são atendidos. Já de 11.482 que possuem entre 4 e 5 anos, 5.874 estão matriculadas.

Versão

A prefeitura disse que, “caso não haja a regularização do registro dos imóveis onde funcionam CIMs do Vila Cristina e Paulo Camilo III, os novos locais que garantirão o pleno funcionamento das atividades escolares das crianças atendidas nesse bairros serão estudados e amplamente discutidos com a comunidade”.

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