O descontrole financeiro da Prefeitura de Betim está aumentando o sofrimento de pacientes que dependem do sistema de saúde pública na cidade. Não bastassem as cerca de 5.000 pessoas que aguardam hoje na fila para fazer uma cirurgia no Hospital Regional e a falta de materiais básicos nas unidades de saúde, desde setembro deste ano, o governo reduziu em cerca de R$ 800 mil o repasse mensal que fazia para a Instituição de Cooperação Intermunicipal do Médio Paraopeba (iCismep) – que atende a usuários de Betim e de outros 26 municípios da região, como Brumadinho e Igarapé, segundo denúncia feita por servidores. O reflexo desse corte é uma queda significativa na assistência a população. O número de consultas oftalmológicas, por exemplo, teria reduzido de 1.000 para 250 por mês. As consultas de otorrinolaringologia, tiveram uma queda de 600 para 150.
Quem paga o preço por essa crise é a população, como é o caso do aposentados Teotina Gomes dos Santos, 83, e Lidio Rodrigues dos Santos, 86. Casados, os dois foram diagnosticados por um oftalmologista particular com catarata nos olhos. Entretanto, como não têm condições de pagar por uma cirurgia, buscaram o SUS em Betim para fazer o procedimento. “Há quatro meses tentamos uma consulta para eles através do posto do Homero Gil, mas até agora nada”, contou a nora do casal, Zilda Gomes Soares, 50.
Com casos de glaucoma na família, a profissional autônoma Elzita Rodrigues, 58, contou que, desde maio de 2015, também aguarda por uma consulta de rotina com um médico oftalmologista em Betim. “No posto em que eu frequento, no Jardim Petrópolis, o clínico me disse que só se eu estivesse quase ficando cega para conseguir uma consulta no Icismep ou no Divino Braga. Ele disse que eles estão dando prioridade só para os casos graves. Me aconselharam a ir na Ouvidoria fazer uma denúncia, mas acho que já estou muito velha para passar por esse tipo de humilhação. O que me deixa revoltada é que é mais fácil uma pessoa de fora conseguir uma consulta no Icismep do quem alguém daqui”, disse.
Cirurgias
Os pacientes que também precisam fazer cirurgias no Icismep também estão sendo prejudicados. Segundo o aposentado Sebastião Antônio da Silva, 71, há mais de cinco anos ele espera para fazer uma cirurgia de catarata nos olhos. “O médico do posto do Bandeirinhas fez o pedido e disse que preciso fazer o procedimento com urgência. Infelizmente, não tenho condições de pagar pela operação e, a cada ano, percebo que minha visão está piorando. Hoje em dia, mal consigo ler, mesmo usando óculos”, lamentou.
Outra betinense que também está na fila de espera por uma cirurgia no Icismep é a auxiliar de produção Denise Dias Leite, 53. Moradora do bairro Novo Horizonte, há quase dois anos ela foi atendida por um oftalmologista da instituição, que a encaminhou para fazer uma cirurgia de retirada de excesso de pálpebras. Entretanto, até hoje ela aguarda para que o procedimento seja agendado. “Não tenho que retirá-las por uma questão estética. Minhas pálpebras estão muito grandes, me atrapalham a ler e a escrever”, contou.
Mais cortes
Segundo um servidor da saúde, que pediu anonimato, a justificativa para o corte de repasse de verba para a Icismep é a crise financeira. “Para os pacientes de Betim, 50% dos procedimentos foram reduzidos. Soube que a Icismep está tentando pressionar o prefeito para não cortar, mas com certeza vão ocorrer muitos outros cortes lá e em toda a prefeitura”, alertou.
Posicionamento
A Secretaria Municipal de Saúde declarou que a participação do município no rateio do iCismep permanece inalterada. “Entretanto, houve uma reprogramação nos agendamentos de procedimentos e consultas devido à questões orçamentárias e financeiras”.
A pasta disse que tem feito gestão da fila de espera por meio da estratificação de risco, de modo a atender primeiro os pacientes com maior prioridade. No caso das especialidades de ortopedia e oftalmologia, eles alegam que a demanda é grande, e, por isso, é dada prioridade aos casos mais graves.
Em relação às cirurgias de catarata, a prefeitura afirmou que não há demanda reprimida. “O pedido do paciente chega à Diretoria de Regulação e é encaminhado para o iCismep para avaliação e agendamento da cirurgia”. Sobre todos os casos citados na matéria, a secretaria de Saúde pediu que os pacientes citados busquem as Unidades Básicas de Saúde de referência para mais informações.
A reportagem também entrou em contato na última quinta-feira (6) com a assessoria de imprensa do Icismep, mas ninguém atendeu as ligações.