O descontrole administrativo e financeiro já apresentado pelo governo Carlaile Pedrosa (PSDB) nos primeiros meses de mandato se agravou devido a crise econômica nacional, resultado em uma situação de completo caos nas contas públicas do município. Segundo dados da própria prefeitura, a receita corrente de Betim sofreu uma baixa de 9,8% no ano passado. Foram R$ 167 milhões a menos nos cofres municipais, reduzindo a receita do município de R$ 1,69 bilhão (valor previsto) para R$ 1,53 bilhão.
Mas como a prefeitura não criou medidas efetivas de economia nem alternativas de receita para a cidade, o preço desse descontrole financeiro tem sido pago pela população, que sofre com a falta de serviços básicos. Um exemplo é a saúde pública. Na última sexta-feira (29), a prefeitura demitiu 50 técnicos de enfermagem que trabalhavam no Hospital Regional. E a situação ainda pode piorar, já que, de acordo com alguns dos demitidos, mais 100 profissionais serão demitidos até março.
Isso resultou no fechamento de pelo menos 18 leitos da clínica médica do Regional. Na ala semi-crítica da pediatria, no primeiro andar, outros 20 leitos foram fechados. Esse setor é onde ficam as crianças com casos mais graves, de isolamento de contato e entubadas.
Os funcionários terceirizados eram contratados através da Instituição de Cooperação Intermunicipal do Médio Paraopeba (Icismep), que só no ano passado recebeu R$ 56, 2 milhões de recursos da prefeitura, de acordo com o Portal da Transparência, para fornecer mão de obra e realizar cirurgias eletivas em Betim.
Deste total, cerca de R$ 3 milhões foram pagos para o Icismep especificamente para a contratação de 30 enfermeiros, 130 técnicos de enfermagem e outros profissionais para o hospital. Para manter as contratações sem concurso público, o governo Carlaile firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público, no qual o município se comprometia a chamar concursados de forma gradual para substituir os terceirizados até meados do ano passado.
Só que isso não aconteceu. Segundo informações de um servidor da Secretaria Municipal de Saúde, a prefeitura até iria pedir mais um prazo para o Ministério Público, mas, diante do caos financeiro, preferiu encerrar o contrato de uma hora para outra, deixando os usuários do hospital desassistidos.
“Eles poderiam ter chamado os aprovados no último concurso da saúde antes de sair demitindo. Mas, como estão sem dinheiro, decidiram encerrar o contrato sem se organizar. Com isso, os leitos do hospital tiveram que ser fechados por falta de profissionais”, afirmou o servidor, que pediu anonimato.
De acordo com uma técnica de enfermagem que foi demitida na última sexta e está de aviso prévio, os profissionais ficaram sabendo do ato dois dias antes. “A gerente se reuniu conosco e disse que a partir do dia 30 seríamos dispensados, que iríamos cumprir aviso e que 18 leitos no segundo andar seriam fechados. E tem pacientes do pronto-socorro esperando por leitos, mas alegam que não há vagas”, disse a técnica de enfermagem Maria José de Souza.
Outra técnica de enfermagem, Rosilva Pereira, também foi afetada. “Demitiram muita gente de uma vez só e, se não contratarem, a situação do Regional vai piorar. O número de leitos já foi reduzido”, afirmou.
A reportagem foi até ao hospital na tarde de terça-feira (2). No segundo andar, no quarto 212, havia apenas um paciente e três leitos desocupados. No 211, mais dois leitos estavam sem pacientes. Já o 216 estava todo fechado. Enquanto isso, no pronto-socorro, pacientes estão em macas espalhadas pelos corredores sem poderem subir para os quartos. Já na quinta (4), o corredor da ala menor semi-crítica da pediatria estava com os quartos fechados, sem poder receber os pacientes.