Carlaile imita MDC e coloca terrenos públicos à venda

O descontrole administrativo, orçamentário e financeiro da Prefeitura de Betim parece não ter fim. Além de demitir médicos da Colônia Santa Isabel, reduzir investimentos em áreas importantes como a educação, o desenvolvimento social, a cultura e o esporte, ao mesmo tempo em que aumenta custos com reformas administrativas sem planejamento e com a criação de outras secretarias e cargos de secretários, que estão sendo preenchido por pessoas de fora da cidade -, o prefeito Carlaile Pedrosa (PSDB) decide agora contrariar uma antiga promessa de campanha e abrir mão de bens públicos e terrenos valiosos que pertencem ao erário municipal.

Um desses locais que provavelmente cairão nas mãos de grupos de empreiteiros está localizado em uma área nobre da cidade e deveria ser aproveitado pela Fundação Artístico-Cultural de Betim (Funarbe) para fins culturais e de valorização da história local.

Localizado em frente à Casa da Cultura Josephina Bento, na esquina da rua Cônego Domingos Martins com a praça Milton Campos, antigo reduto cultural e de entretenimento da cidade, o terreno possui 2.511 m², e a possibilidade de venda, pelo valor de R$ 3,7 milhões, já provoca arrepios na classe cultural.

De acordo com o ex-presidente da Funarbe Osvander Valadão, o terreno em frente à Casa da Cultura já tinha sido aprovado para sediar a própria fundação e também a chamada “Casa da Banda”, uma antiga reivindicação dos integrantes da tradicional banda de música Nossa Senhora do Carmo, patrimônio imaterial do município e que passa por severas limitações de recursos.

“Estou vendo isso acontecer com muita dor no coração. Não pelas minhas divergências políticas com o prefeito, mas pela má destinação que está sendo dada a um terreno tão valioso do ponto de vista financeiro e cultural para a cidade. Eu mesmo organizei reuniões em que o prefeito prometeu para a banda Nossa Senhora do Carmo a construção de sua sede. O local é próprio para esse fim e tinha sido prometido para a entidade. Além disso, esse lugar poderia reunir, em um só endereço, todas as unidades administrativas da Funarbe, que, hoje, estão espalhadas por toda a cidade, pagando aluguel e onerando cofres públicos. Infelizmente, a nossa cultura perde novamente, em uma demonstração clara de falta de apreço por nossos valores e nossas raízes”, lamentou Valadão.

Incoerência

Carlaile Pedrosa, enquanto deputado federal, no ano de 2011, foi contra a doação de terrenos públicos por parte da petista Maria do Carmo Lara (PT). A ex-prefeita, inclusive, tentou vender o terreno em frente à Casa da Cultura, mas, na época, a pedido do próprio Carlaile, teve resistência por parte do então presidente da Câmara Municipal, Nehemias Araujo, do Partido Verde.

Segundo Nehemias, o que está acontecendo hoje pode ser interpretado como “uma traição do prefeito”. “Eu recebi o pedido do próprio Carlaile. Conversei com ele diversas vezes, e foi ele quem me convenceu de que aquele terreno, assim como outras áreas espalhadas pelo município, era importante para a cidade. Encaro com sentimento de revolta essa postura. O prefeito não está assumindo sua palavra. Pior: está colocando em prática as mesmas políticas de sua adversária que ele tanto condenava”, disse o ex-vereador.

Sonho destruído

Integrante da banda Nossa Senhora do Carmo por mais de 22 anos, nove deles, como maestro, Joanir de Oliveira lamentou que a prefeitura tenha colocado o terreno em frente à Casa da Cultura à venda em leilão.

“Desde a última gestão de Carlaile, o projeto para a construção desse centro cultural já estava elaborado. Nosso sonho era abrigar no local salas de música para a população, um espaço para guardar o acervo da banda Nossa Senhora do Carmo e um ambiente apropriado para os ensaios da corporação. Logo quando a Maria do Carmo assumiu, engavetou o projeto, e, agora, Carlaile, ao colocar o terreno à venda, termina destruir com esse sonho”.

Apesar de estar afastado da banda, Joanir falou sobre os problemas financeiros enfrentados hoje por esse importante patrimônio cultural do município. “Atualmente, soube que a banda está paralisada e que deve retornar às atividades em março. Contudo, a situação financeira está complicada. Para 2015, estão previstos menos da metade dos recursos para manter a infraestrutura e os músicos. Com isso, a banda, que, antes, tinha 45 integrantes, neste ano, terá apenas 25”, contou.

Joanir também criticou a venda do lote na praça Milton Campos, que, para ele, faz parte da história cultural de Betim. “Lamento a falta de visão. Em vez de firmarem parcerias público-privadas para preservar a cultura da cidade, estão dizimando os espaços culturais de Betim”. O terreno fica de frente a outra lástima da atual administração: a obra abandonada do teatro municipal.

Resposta

A assessoria da prefeitura informou que a atual administração irá leiloar os oito terrenos de propriedade do município “com o objetivo de adquirir recursos para concluir a obra iniciada e inacabada do teatro municipal”. Ainda conforme a assessoria, “o objetivo é que o teatro inclua Betim em circuitos culturais, campanhas de popularização, dentre outras iniciativas, e que, além de palco para espetáculos, o local seja um espaço de valorização dos artistas locais, inclusive com recinto especial para a banda Nossa Senhora do Carmo”.

Leilão de áreas nobres vai render R$ 10 milhões ao governo

A polêmica decisão de leiloar terrenos públicos da cidade, sobretudo em áreas consideradas nobres do município, e que poderiam abrigar obras públicas que são reivindicadas pela população há anos, como creches, Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e escolas, apesar de já ter sido bastante criticada pelo prefeito Carlaile Pedrosa (PSDB) antes de ser eleito, repete a estratégia adotada pela ex-prefeita Maria do Carmo Lara (PT) no seu último mandato. Na época, ela, no anseio de recuperar os cofres municipais, levou a leilão 22 áreas públicas de Betim. Agora, segundo editais de licitações publicados no “Órgão Oficial”, a estimativa é que a atual administração arrecade, pelo menos, R$ 10 milhões com a venda dessas oito áreas que serão leiloadas.

Além da área de 2.511 m² localizada em frente à Casa da Cultura e avaliada em R$ 3,7 milhões, outros sete lotes públicos serão arrematados. Um dos mais valiosos está localizado em uma área de 5.069,02 m², em um lugar conhecido como Amoras. O valor total do lote, conforme o “Órgão Oficial”, é de R$ 1,8 milhão.

O Jardim da Cidade, um dos bairros mais nobres de Betim, situado na região Central da cidade, também terá um terreno leiloado, no valor de R$ 1,7 milhão. Trata-se de uma área de 1.907,30 m², localizada na rua Ramiro Botinha, esquina com a avenida Teotônio Parreiras.

Outra valiosa área que será vendida pela atual gestão fica localizada na avenida Brasil, no bairro Jardim Casa Branca. Nessa região, a prefeitura pretende se desfazer de um lote de 9.017,00 m², no valor de R$ 1,5 milhão. Já em bairros como Paulo Camilo e Laranjeiras, o município perderá quatro terrenos públicos, que, juntos, são avaliadas em quase R$ 1,3 milhão.

Único vereador que se posicionou contra a venda dos lotes quando o projeto de lei autorizando a alienação foi votado na Câmara, em 2014, Vinícius Resende (SD) criticou a atitude do governo. “Não podemos concordar com o leilão desses terrenos. Essas áreas públicas deveriam ser usadas em prol da sociedade. São espaços muito bem-localizados, onde poderiam ser construídas unidades de saúde, creches e escolas, mas, em vez disso, o Executivo optou por leiloar esses terrenos, sem sequer se preocupar em informar para a sociedade o que vai fazer com os recursos arrecadados. O que vemos hoje na administração pública de Betim é uma gestão irresponsável, que, além de não traçar metas para enxugar a máquina e se adequar ao momento de recessão que estamos vivendo, está vendendo nossa cidade”.

A medida gerou insatisfação entre os betinenses. “Tenho dois filhos, e Betim não possui espaços de lazer para eles. Por que, em vez de vender, a prefeitura não desenvolve projetos sociais nesses locais?”, disse a dona de casa Telma Nogueira.

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