Candidato é acusado de praticar fraude eleitoral

Faltando 23 dias para o término do primeiro turno das eleições, o jornal O Tempo Betim recebeu grave denúncia sobre atos que podem significar irregularidades na campanha do candidato a prefeito Ivair Nogueira (PMDB). Uma coordenadora de campanha do próprio candidato acusa sua equipe de praticar abuso de poder econômico, realizar a captação ilícita de sufrágio, utilizar indevidamente recursos para a campanha, falsificar documentos, utilizar de falsa identidade e ainda de praticar conduta vedada por lei eleitoral.

De acordo com Ravena Cabral dos Santos, a campanha de Ivair Nogueira a contratou para liderar uma equipe de bandeiristas, porém, poucos dias depois, ela mudou de função, passando a ser coordenadora de um grupo formado por outras dez jovens com o objetivo de realizar pesquisas eleitorais. O que Ravena não sabia era que ela teria que trabalhar para um instituto de pesquisas falso, e que seria obrigada, juntamente com suas colegas, a falar mal de outras candidaturas em longos percursos, batendo de casa em casa e manipulando enquetes até o fim das eleições.

Dizendo-se “indignada com a forma de fazer campanha”, a coordenadora procurou a reportagem na última terça-feira (6) e entregou uma série de documentos que podem servir para comprovar as acusações que ela fez. Dentre os papéis apresentados, ela entregou crachás e questionários com a logomarca do instituto que, na verdade, não existe. “Essa empresa nunca existiu. Mudaram o nome desse instituto duas vezes na mesma semana. Ele foi inventado somente para convencer moradores de Betim a conceder entrevistas como se estivessem conversando com pesquisadores verdadeiros”, disse ela.

Ravena explicou que recebia orientações de um dos coordenadores da campanha do PMDB, identificado por ela mesma como Geraldo Queiróz Campos, o Geraldinho, assessor da vice-presidência da Assembleia Legislativa, cargo que ocupa por indicação de Ivair Nogueira, para ir às ruas e determinar que as “pesquisadoras” falassem mal da principal campanha adversária.

“Na primeira reunião que participei nesta nova função, recebi as instruções do Geraldinho Campos. A pesquisa só tinha cara de pesquisa. Ela era estratégia para mudar a opinião de quem fosse entrevistado, tanto é que não existia prazo para finalizar o trabalho nem número certo de pesquisados. Foram repassados para todas nós muitos questionários, com perguntas sobre todos os candidatos e sobre as intenções de voto. Porém, depois que a gente aplicava o questionário, a gente tinha que induzir os moradores a mudar de opinião, caso a resposta dele não fosse favorável ao nosso candidato. Quando os entrevistados diziam que votaria em outro candidato, por exemplo, a gente tinha que dizer que ele (o morador) era o único da rua que tinha essa opinião. Trabalho pesado mesmo, de ‘detonação’, com o objetivo de destruir a imagem do adversário”, explicou a coordenadora.

"Sem contratos"

“Para mim, as falsas pesquisas que estávamos aplicando não são o único problema disso tudo. Desde o começo da campanha estava atuando de forma ilegal, pois não assinei nenhum contrato de trabalho, apesar de sempre cobrar isso dos coordenadores. Fiquei com medo, pois estava sendo obrigada a mentir. Agora, depois que desconfiaram que eu não estava concordando com a postura da direção da campanha, tive que assinar um documento. Mesmo assim, o Geraldinho me ligou pouco tempo depois dizendo que o contrato que mandou para eu assinar não tinha validade. Segundo ele, teria que ser feito outro. Tenho uma cópia dele aqui e, neste documento, assinado por mim, sou ‘contratada’ para fazer ‘divulgação de campanha’, mas, em momento algum, ele diz que eu teria que fazer pesquisas ou falar mal de outro candidato”, explicou.

A respeito do pagamento, Ravena explicou que a “combinação” foi feita com o próprio Geraldo Queiróz Campos. “Ele me garantiu que irá me pagar por fora. Não sei como, mas ele disse que teria de ser assim, e eu não poderia falar. Nem mesmo para a família”, disse.

Para ‘pesquisa’, valor seria de R$ 1.000 por pessoa

Segundo uma das coordenadoras da campanha do deputado estadual Ivair Nogueira (PMDB), Ravena Cabral dos Santos, o acordo com Geraldo Campos, assessor do deputado estadual na Assembleia Legislativa, era de pagar um valor de R$ 1.800, mas, para as outras meninas da equipe, que seriam as ‘pesquisadoras’, ou seja, aquelas que teriam que bater de porta em porta, o pagamento seria de R$ 1.000.

“Até hoje, no entanto, eles não acertaram comigo nem com as outras meninas. Só pagaram o transporte para algumas delas e pediram para eu alugar um veículo, em meu nome, pois o meu carro estava estragado e não tinha como ir até o comitê”, disse Ravena.

Segundo Ravena, a equipe dela tinha uma meta: “Todas nós tínhamos um número exato de pesquisas para fazer. A produção girava em torno de 50 a 60 residências por dia. Em todas as casas tínhamos que saber a opinião do morador e, depois, falar mal do adversário”, disse.
Sob orientação da coordenadora, a reportagem chegou a gravar um vídeo em que todas as denúncias foram relatadas pela coordenadora de campanha do candidato do PMDB (assista no canal do jornal O Tempo Betim).

Os repórteres do jornal e O Tempo Betim também flagraram o desembarque de diversas garotas com pranchetas na mão de uma Kombi adesivada com a propaganda de Ivair. Todas elas saiam do veículo e entravam na casa de Geraldo Campos, onde as reuniões de instrução do trabalho eram realizadas. Outras duas meninas ouvidas pela reportagem também confirmaram a denúncia feita pela coordenadora.

Este é o caso da própria irmã de Ravena, a estudante de direito Larissa Maia. “Quando eles me perguntaram como estavam as pesquisas, disse que não estava nada bem. Aí passaram a me orientar, dizendo que eu teria que apresentar o crachá de um instituto. Depois, mudaram o crachá, mas a recomendação permaneceu. Eles também diziam que seria esse instituto que nos pagaria, mas acho que isso é mentira. É a própria campanha que vai nos pagar”, relatou.

Resposta

A reportagem do jornal O Tempo Betim ligou para Geraldo Campos, mas ele desligou o telefone sem conversar com a reportagem. O assessor de imprensa da campanha de Ivair Nogueira, jornalista Wilson Santos, também foi procurado, mas ele também não quis falar nada. Pediu para que o jornal enviasse os questionamentos sobre o assunto por e-mail. Assim foi feito, e a resposta que ele encaminhou à reportagem foi a seguinte: “A respeito da demanda, informamos que o candidato Ivair Nogueira não autorizou e nem autoriza qualquer ação de campanha em desacordo com a legislação”.

Assessor não vai à Assembleia

O responsável por criar a estratégia de abordagem da campanha de Ivair Nogueira, contestada por sua própria coordenadora, o assessor parlamentar da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, Geraldo Queiróz Campos, o Geraldinho, não aparece para trabalhar no gabinete há muito tempo. Por telefone, a recepcionista da vice-presidência da Assembleia confirmou que Geraldinho está lotado no setor, mas que ele não presta serviço no local.

A reportagem, então, ligou para o gabinete de Ivair Nogueira, que disse que realmente ele trabalha para Ivair, mas que, na tarde da última quinta-feira (8), ele estava em serviço em Betim. Neste mesmo horário, ele realizava uma palestra com todas as meninas sobre a realização das pesquisas, conforme áudio gravado por assessores da campanha majoritária do PMDB.
O assessor de imprensa da Assembleia, Rodrigo Lucena, disse que a responsabilidade por controlar o trabalho de todos os funcionários do órgão é de exclusividade de cada deputado. “Não quer dizer que ele não esteja prestando serviços para o gabinete. Ele pode prestar serviços fora da Assembleia”, explicou.

Os crachás que eram usados pela equipe “contratada” para fazer as pesquisas e falar mal do adversário, de acordo com a estudante de direito Ravena Cabral dos Santos, tinham o nome de “Instituto de Pesquisa Eleitoral (IPE)”, mas depois foram substitutos por uma suposta empresa, com o nome de GQC Assessoria Jurídica e Política. GQC, coincidência ou não, são as iniciais de Geraldo Queiróz Campos.

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