Um arma apontada em sua direção, ameaças, gritos e, em segundos, o carro de Charles Francisco, 33, saía de suas mãos para fazer parte de uma alarmante e crescente estatística: a cada quatro horas, um veículo é roubado ou furtado em Betim. Somente de janeiro a junho deste ano, foram 1.064 casos, segundo dados da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), 2,5% a mais do que em 2015, quando foram contabilizados no mesmo período 1.038 ocorrências do tipo. Na comparação entre 2014 e 2015, o aumento foi de 4% no número de casos, já que foram 2.014 registros de furtos e roubos no ano passado contra 1.938 no ano anterior.
“Estou assustado como a criminalidade vem crescendo em Betim. Não reagi ao assalto com medo do que pudesse acontecer comigo. Tenho visto muitos casos de pessoas reagindo e sendo mortas por assaltantes. Mas fiquei muito revoltado com o que aconteceu comigo, ainda mais porque na semana anterior bandidos também me roubaram e levaram meu celular. Meu carro, um Palio Attractive prata, de placa OQY-9413, não tinha seguro. Tive um prejuízo de mais de R$ 30 mil e, agora, estou indo trabalhar de van. A gente luta tanto para conseguir as coisas, daí vem dois bandidos armados, e levam o que a gente tem com tanta facilidade. É desanimador”, lamentou Charles Francisco.
De acordo com o especialista em segurança pública da PUC Minas Robson Sávio, os crimes contra o patrimônio, como furtos e roubos, ocorrem principalmente por três motivos. “O primeiro é a baixa vigilância, que é a falta de policiais e guardas nas ruas. O segundo são os infratores motivados, em que não há o desmantelamento das quadrilhas atuantes. E, por último, as vítimas disponíveis, que deixam seus veículos em locais ermos e pouco seguros”, disse.
Sávio acredita que, para combater esse tipo de crime, é preciso uma mudança de tática, onde deve haver um aumento na punição para quem recepta e compra esses produtos furtados e roubados. “Se o que vem sendo feito tem pouco efetividade, é preciso mudar de tática. Falta punição mais rígida para quem compra e quem recepta essas peças roubadas. Enquanto existirem no mercado essas pessoas, haverão quadrilhas dispostas a cometerem esse tipo de crime”, analisou.
O especialista em segurança pública Jorge Tassi concorda. Para ele, é preciso atacar também o comércio paralelo de peças e focar na fiscalização da venda de veículos seminovos, além de incrementar a estrutura da Polícia Civil. “A corporação não tem a estrutura necessária para a investigação e não consegue dar conta de toda a demanda”, defendeu.
O responsável pela 2ª Delegacia Regional da Polícia Civil de Betim, Álvaro Huertas, explicou que o crescimento dos roubos e furtos de veículos em Betim reflete o aumento da criminalidade que ocorre em todo o país e demonstra as falhas na legislação, que facilitam a liberação de quem comete o furto ou quem recepta ou compra peças roubadas. “Basta pagar fiança, que o autor é liberado. Já a pena para o crime de receptação é baixa”, explicou. “A Polícia Militar tem feito um trabalho ostensivo nas ruas, a rede de comerciantes protegidas também tem ajudado muito a recuperar os veículos, e a Polícia Civil tem feito seu papel. Neste ano, em três operações, desmantelamos quatro quadrilhas do tipo. Mas é preciso consciência da população e dos comerciantes para não comprarem e venderem produtos sem procedência”.
A Secretaria Municipal de Segurança Pública alegou que, quando é acionada, oferece suporte à fiscalização de comércio de peças e veículos realizadas pelas polícias Civil e Militar.