Ex-Prefeito Jesus Lima

O ex-prefeito de Betim Jésus Lima aceitou o convite Betim Online Online, para responder a perguntas feitas por jovens. Jesus Lima fala sobre o verdadeiro motivo da divisão do PT municipal e dá seu ponto de vista sobre a administração atual da cidade.

– As pesquisas mostram uma rejeição da população com a administração da prefeita Maria do Carmo Lara. Se o senhor estivesse no lugar dela, qual seria a sua reação para mudar esse cenário?

Primeiramente é necessário montar um bom time, secretários com experiência e com visão de futuro.

Pessoas que irão ficar o mandato inteiro tentando aprender não podem ser colocadas em cargos chaves, pois quem perde com isso é a população. Hoje sinto que o povo está querendo um governo moderno, dinâmico, rápido para resolver os problemas, que decide em favor dos mais pobres. Ou seja, deve-se fazer uma administração mais técnica, melhor preparada, com políticas públicas muito bem planejadas. Deve-se, aos poucos, eliminar os jeitinhos, as políticas menores, o clientelismo, que é muito forte ainda na cidade. É essa coragem que está faltando em Betim. A lei tem que ser para todos. Se não for para todos, não pode ser para ninguém. Falo coragem, pois para fazer isso é necessário ter coragem de fazer o certo para a maioria. E eu paguei caro por isso, mas, cada vez mais, estou convencido que eu estava no caminho certo.

 

 Durante a campanha, Maria do Carmo pregou o lema "Saúde e Paz". Hoje somos atendidos em postos de saúde sem nenhuma qualidade e vemos a violência crescendo a cada dia. O senhor consegue enxergar a saúde e paz prometida na campanha?

É possível se ter uma saúde de qualidade em Betim com o orçamento que a cidade tem hoje. E foi isso o que fiz com um orçamento muito menor do que hoje. O que Betim precisa é de gestão, de administração. Quando fui prefeito criei o primeiro cartão magnético que identificava o usuário do sistema de saúde de Betim. Isto permitiu garantir uma saúde de qualidade para os moradores, com tudo informatizado. Quando a pessoa chegava ao posto de saúde, já tinha todo um histórico do morador. Isso facilitava o atendimento, pois se conhecia preliminarmente o paciente.  Era a população que escolhia o médico que queria, e não o contrário. Lembro-me muito bem que as consultas eram marcadas por telefone com hora certa. Existia a internação domiciliar do paciente, em que o médico ia até lá na casa das pessoas.

Quanto ao Hospital Regional, nem se fala. Betim foi ter hospital público de qualidade funcionando depois que virei prefeito. Pois no nosso primeiro mandato, nós construímos o prédio, a infra-estrutura física. Muito bem feito, por sinal, mas prédio apenas não garante atendimento hospitalar. Hospital é um complexo, um conjunto de ações para cuidar bem do paciente. E foi isso que aconteceu em Betim a partir de fevereiro de 1997, (meu primeiro ano de governo) quando o Hospital Regional começou verdadeiramente a funcionar.

Quanto à segurança pública, pela mesma forma, nós conseguimos melhorar a segurança na cidade, pois gerenciamos bem esta questão.  E neste sentido, um projeto que ajudou muito, foi o Projeto Ceia. Esse projeto incentivava os moradores a tomarem conta do seu quarteirão. Fizemos com que a população passasse a confiar na polícia e essa a confiar na população.  Esse projeto induzia os moradores a conhecer uns aos outros e cada um a cuidar da casa do outro e da rua de todos. Isso funcionava bem e todos ainda se lembram do Carnaval Pra Pular, do Forró Beleza que acontecia todos os anos nas ruas da cidade. Esse projeto Ceia ajudou muito a assegurar paz para os moradores. Inclusive, esse projeto foi objeto de minha pesquisa para conclusão do meu curso de Mestrado. Se a segurança já foi boa numa época muito mais difícil financeiramente para o município, por que não pode agora? Ou seja, a questão da saúde e da segurança tem jeito, basta saber planejar, executar, monitorar e avaliar.

 

 Sua gestão foi marcada pela alta competência técnica da equipe de governo. Onde muitos desses técnicos que ocupavam cargo de chefia eram ligados ao grupo político que era sua oposição. O atual governo é criticado pelo desconhecimento de grande parte da equipe. O senhor acredita que a ala do PT que é ligada a Maria do Carmo não buscou habilitar-se ao longo dos anos que ficaram fora do governo ou não têm autonomia profissional para atuarem?

Para que um governo dê certo é necessário saber aonde se quer chegar. Na minha época nós tínhamos foco. O nosso governo estabeleceu duas prioridades para cada secretaria e duas prioridades para o município. O nosso foco era a população mais pobre, para isso estabelecemos duas ações prioritárias: a implantação do Programa Cesta Escola e a construção do Riacho das Areias, ligando os bairros mais pobres ao centro da cidade. Felizmente consegui chegar ao final do mandato com essas duas metas concluídas. Além disso, fizemos muitas outras coisas, como a iluminação da BR 381 e o asfaltamento da maioria das ruas dos bairros mais distantes.

Além do aspecto gerencial, é necessário também ter determinação. Nós tivemos coragem de fazer uma obra como o Riacho das Areias em tão pouco tempo. Nós tivemos coragem de colocar um gigante de um hospital daquele pra funcionar com qualidade.  Isso numa época de crise mundial; de FHC; de ter de pagar as dívidas do mandato anterior, quando ainda não tinha Lei de Responsabilidade Fiscal; de Lei Robin Hood, que tirou receitas do nosso município.

 

 Em relação ao grupo do vice-prefeito, que é muito criticado e tem realizado substituições instantâneas, qual a sua opinião?

Acho que todo vice-prefeito tem que trabalhar para o bem maior, para que o governo dê certo. Quando fui vice-prefeito no primeiro mandato do PT em Betim, a prefeita cuidou da parte política e eu cuidei da administração. Eu coordenei o Orçamento Participativo e consegui reservar o dinheiro para construir o Hospital Regional. Fiz isso a muito custo, e foi justamente o hospital que levantou o nome da prefeita na época.



 Em entrevista ao jornal O Tempo Betim, o senhor relatou a divisão do PT e a entrada de "novos atores para a eleição de 2012". Se houvesse prévias partidárias, o senhor acha que poderia vencer? E se vencesse e fosse o candidato pelo seu partido, conseguiria colocar Betim nos trilhos novamente, como fez durante sua gestão?

Hoje eu agradeço esse grupo dentro do PT que me chamou agora para ajudar. E é justamente para isso que estou me colocando à disposição. Talvez, quem sabe, seja por meio das prévias que isso vai se resolver. Talvez não, quem sabe com a simples aceitação das nossas idéias para melhorar a cidade, já nos damos por satisfeitos. Veremos que rumo toma esta discussão.

Eu hoje poderia tranquilamente estar aqui em Betim ajudando a mudar os rumos dessa cidade, que conheço cada beco, cada canto, cada pessoa. Mas estou lá em Brasília ajudando a Dilma a melhorar a vida do povo mais pobre desse País.
Quanto à possibilidade de vencer as prévias, acho que é possível, mas não vai ser fácil. Hoje uma grande parte dos filiados do PT está empregada na máquina pública. Isso dificulta muito ganhar as prévias. Todavia, se o PT hoje tem 1200 filiados aptos a votar, existem aproximadamente uns trezentos dentro da máquina e existem uns seiscentos que estão livres para votar em quem eles acham que seja melhor para o PT. Creio que se o governo municipal continuar com o atual índice de rejeição, os filiados, mesmo dentro do governo, irá querer uma alternativa para salvar o PT.

Quanto à questão sobre colocar Betim nos trilhos, hoje todos os formadores de opinião mais bem informados sabem que fui um bom prefeito, e, acima de tudo, sabem que fui extremamente cuidadoso com cada centavo da prefeitura.  As pessoas hoje me valorizam, pois sabem que se conhece quando uma pessoa é boa é no momento da dificuldade. E apesar de todas as turbulências que sofri, as pessoas curtem as boas marcas que deixei na cidade.

Lembro-me muito bem, que no meu mandato de Prefeito, Betim só saía na mídia com notícias boas: Prêmio Prefeito Criança dois anos seguidos, Melhor Hospital Público de Minas Gerais, dentre outros destaques.

 

 No domingo (20), Maria do Carmo deu uma entrevista ao jornal Estado de Minas. Essa entrevista foi vista por muitos, como um sinal de que ela é a candidata do PT na eleição de 2012. O senhor não acha que ela "reagiu" a sua entrevista dada ao jornal O Tempo Betim, usando outro jornal para mostrar a força política e partidária que ela tem dentro da cidade?

Quanto à política do PT em Betim hoje, chamo a atenção de que não é preciso acabar com uma liderança para a outra sobreviver. Isso foi o que predominou dentro do PT desde que foi aprovada a reeleição de prefeito em 1998. O PT de Betim precisa reaprender a fazer o que ele praticou nos primeiros anos de sua existência na cidade. Não é preciso acabar com o Jésus Lima para que a Maria do Carmo sobreviva, tampouco é necessário acabar com a Maria do Carmo para o Jésus Lima viver.  Faz-se necessário pensar grande, pensar na união do PT e pensar no que é o melhor para o povo de Betim. Todos os filiados e simpatizantes são importantes, precisamos incluir as pessoas, precisamos transformar as panelinhas em um caldeirão para todos poderem servir bem à população.

 

 Muitos nomes são cotados como possíveis candidatos para prefeito. Se o senhor não fosse o candidato pelo seu partido e a prefeita Maria do Carmo disputasse a reeleição, votaria nela?

Betim hoje precisa de um administrador que estude que pesquise que tenha experiência em gestão pública, que seja correto com o dinheiro público, mas que acima de tudo, tenha lado, ou seja, você tem que fazer opção pelos mais pobres. Você querer fazer um governo para todos é equivocado, não chega a lugar nenhum. É claro que você vai cuidar de todos, Betim é de todos, mas você tem que priorizar a população que mais precisa.

Na nossa administração, por exemplo, trouxe até o Oscar Niemeyer para ajudar na estruturação da cidade. Ele chegou inclusive a fazer o projeto do Centro Administrativo que seria localizado no miolo do mapa de Betim, que é na Região do Alterosas. Teríamos também o Parque Municipal que seria localizado no cruzamento da Via Expressa com o Riacho das Areias, para ser um local de encontro da população. Tínhamos também o projeto de continuar a ciclovia pelo Riacho das Areias, de modo que a pessoa podia sair de bicicleta do centro de Betim e ir até o Parque Fernão Dias em Contagem. Outro projeto importante era o viaduto de ligação da Avenida Rio Madeira passando por cima da BR 381, da Ferrovia e do Riacho das Areias e ligando com o Bairro Nova Baden. Infelizmente, os outros administradores que vieram, fizeram pela metade ou abandonaram todos esses projetos.

Quanto ao início da questão sobre a casualidade de eu não ser o candidato a prefeito, digo o seguinte, eu sempre votei no PT e vou continuar votando. Desde que o PT foi criado em Betim, já houve cinco eleições para prefeito e sempre votei no PT.

 

 Com o índice de homicídios crescente entre os jovens principalmente pelo tráfico de drogas, qual ação o senhor adotaria para gerar maior segurança na cidade? E como tiraria esses jovens do mundo das drogas?

Percebo que agora, além do envolvimento maciço da população, deve haver um trabalho de inteligência integrada dos sistemas públicos de segurança (Polícia Militar, Polícia Civil, Ministério Público, Polícia Federal). Deveria haver um maior investimento social nos adolescente e nos jovens, e isso é plenamente possível de ser feito, basta ter foco gerencial e pessoas competentes para resolverem o problema. Se no Rio de Janeiro está se resolvendo o problema, por que não em Betim?

 

 Os pacientes têm reclamado com freqüência do atendimento prestado nos postos de saúde. O senhor acha que criações de novos postos de atendimento podem sanar a qualidade dos profissionais?

Acredito que o problema da saúde de Betim é gerencial. Construção de novos prédios pode ajudar, mas não vai resolver o problema. Na nossa época, cheguei até a construir o Posto de Saúde de Citrolândia e do Icaivera, mas o mais importante é o atendimento. Precisa-se de profissionais qualificados tomando conta de pessoas identificadas. Não é possível um médico tomar conta de todo mundo, termina por não tomar conta de ninguém. É necessário que o paciente conheça o seu médico e o médico conheça o seu paciente. Isso é gerenciamento, economiza recursos e qualifica o atendimento. Veja, por exemplo, como era bom o atendimento no Hospital Regional, as pessoas falavam que era hotel cinco estrelas, de tão bom que era para os pacientes e acompanhantes. A alimentação era de qualidade, a sobremesa era maçã, pêra, kiwi, tudo de qualidade. Uma coisa deve ser princípio na administração: a população pode ser pobre, mas merece coisa boa, de primeira.

 

 O funcionalismo recebeu um aumento de 5%, sendo que 2% seriam neste ano e os outros 3% serão em 2012. Levando-se em conta a entrevista concedida pela prefeita ao jornal Estado de Minas, o senhor não acha que esse aumento foi humilhante ou contraditório as palavras dela?

Quanto ao funcionalismo, vejo que hoje com a arrecadação que a cidade tem os servidores poderiam ter ganhado melhores. Apesar de ter sofrido na nossa época os efeitos da Lei Robin Hood e da Lei de Responsabilidade Fiscal, os professores, na minha época, recebiam um dos melhores salários da Região Metropolitana. Claro que mereciam mais, mas ainda assim conseguimos pagar os melhores salários do Estado de Minas Gerais. Na saúde, os funcionários do Hospital Regional, até hoje se lembram com saudade, da quantidade e doplus que ganhavam com horas-extras.  Foi na nossa  época também que implantamos os Agentes Comunitários de Saúde – ACS, que até hoje se lembram dos nossos bons tempos.

 

 Qual nota o senhor daria para o governo de Maria do Carmo?

Quanto ao governo atual, vejo que tem coisas boas, mas tem que fazer muita coisa para buscar contemporizar os desejos da população. Acho inclusive que a população sabe que não é possível se fazer tudo, mas que um patamar mínimo aceitável deve existir. Vejo que, na prefeitura hoje, tem muita gente fazendo muita coisa pra todo lado, mas precisa de norte, de saber aonde se quer chegar, digo que problema não é de comunicação, o comando da cidade hoje precisa de foco, de gestão. Falo isso com o objetivo de ajudar, de cooperar, de assessorar, pois quem tem a ganhar são as mulheres, os homens, as crianças e os jovens que vivem e labutam nessa cidade.


BATE-BOLA

- Betim: Cidade de futuro.

- PT : Instrumento de luta por um País mais igual.

- Governo Dilma: Racionalidade a serviço da justiça social.

- Governo Maria do Carmo: Buscando acertar.

- Um passatempo: Visitar cachoeiras.
 
- Livro de cabeceira: Grande Sertão Veredas – Guimarães Rosa.

- Uma lembrança: Visita às dunas de Jericoacoara-CE.

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